Micro-histórias, Fábula Curta e microscópios alternativos
Quarta-feira, 26 Setembro 2007 de Marconi L. Pires
CARLO GINZBURG, PIONEIRO DA CHAMADA “MICRO-HISTÓRIA”, numa entrevista cedida ao programa Entre Linhas, revelou um ponto de vista interessande em relação à essas histórias tidas por muitos como vazias e inexpressivas.
O Prefixo MICRO, colocado em micro-história, não se refere unicamente que a história é curta. Claro que literalmente ela é, mas é mais que isso. A micro-história tem outra dimensão, bem maior que suas breves linhas. Ela é gigante em termos de conteúdo, de compreensão. Tomo como exemplo o microscópio. Para que serve um MICROscópio, senão observar objetos de dimensões muito pequenas! Amplia-se então esse objeto, dando a ele dimensões gigantesgas, a fim principalmente de estudá-lo e de melhor compreendê-lo.

Assim, eu vejo a micro-história como um microscópio alternativo, destinado a buscar numa breve composição uma outra dimensão diferente daquela que é vista / lida a olho nú. Ou seja, a micro-história é micro não porque é curta, mas por que amplia a visão, a dimensão, a compreensão.
Um bom exemplo desse microscópio alternativo é Fábula Curta, composta por Franz Kafka, um dos meus escritores favoritos. Lê-se a Fábula Curta e tira-se dela uma dimensão capaz de render dias e dias de diálogos e estudos acerca dessa obra. Sem falar na identificação que nela encontramos relacionados à nós mesmos. Mude, ou será devorado. Enquanto não muda, o mundo vai se afunilando, e você pode ficar para trás. Quem nunca se sentiu num beco sem saída em algum momento da vida? Em Fábula curta, fazendo uso de menos de 90 palavras, Kafka mostra um pouco dessa sensação, a partir do ponto de vista de um pequeno ratinho:
- Ai de mim! - disse o rato. - O mundo vai ficando dia a dia mais estreito!
“Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair!”
- Mas o que tens a fazer é mudar de direção! - Disse o gato, devorando-o.
A dimensão desse texto é inimaginável, aliás, como tudo o que Kafka escreveu. Ele não está preso a esse número reduzido de palavras, vai muito além. Li uma frase em algum lugar que não me lembro, supostamente atribuída a Leonardo Da Vinci, que diz assim: “A simplicidade é o último grau de sofisticação“. E pode crêr que ele está certo.
Quem não conhece também os poemas de bolso escritos por Drummond? Já publiquei aqui o “Sobre a Bahia”, mas existem outros, como podem ser vistos no site Alguma Poesia.
Tudo muito simples, curto, direto, e fantástico! ![]()





