Livro cheio de… coisas escritas
Quinta-feira, 18 Outubro 2007 de Marconi L. Pires
DEVO CONFESSAR QUE AS ÚLTIMAS FÉRIAS QUE gozei eu mais assisti televisão que qualquer outra coisa. Talvez influenciado pelos jogos do Pan, quem sabe, mas mesmo assim me sinto envergonhado por isso. E com o controle remoto na mão fico inquieto, mudando de canal sem parar, numa busca que só tem fim ou quando acho algo legal pra assistir – o que é muito raro, ou quando é pra desligar de vez a TV – o que é mais certo de acontecer.
Numa dessas vezes não resisti e parei pra assistir a um daqueles programas idiotas da MTV. Como meu amigo Joey Ramone já dizia no começo dos anos 1990: “A MTV matou a música”. Tudo bem, ele adorava aparecer por lá, mas vamos tentar esquecer isso…

O tal programa lembrava muito um desses “Programa do Ratinho”, “Casos de Família”, que consiste basicamente em pegar uma pessoa, expô-la ao ridículo, pra finalmente resolver seu problema , ou realizar seu sonho. Não é uma proposta indecente? Exponha sua vida pessoal, seja ridicularizado, vire chacota no seu colégio, na vizinhança, mas tenha o seu sonho realizado, não importa qual sonho seja!
Tinha uma gordinha, simpática até, nesse programa, e seu sonho era ser a rainha do baile de formatura e imaginem só, dançar a valsa com o cara mais “popular” do colégio. Ridículo, mas não resisti a esse show de horrores e segui assistindo. Só que essa gordinha não era a do tipo “popular”. Como descreveu um colega de turma: “ela é muito calada, não é de conversa, prefere ficar pelos cantos às voltas com livros, e tal”. Surge então a primeira expressão de nojo. Quando o cara disse “livros”, ele faz uma cara de desprezo tão grande, que se a televisão estivesse sem som, a impressão que daria é a de que o cara estava falando de uma coisa muito nojenta, como uma barata ou um rato muito grande andando pelo chão. Mas não, ele se referia à ação de ler livros. Tudo bem, isso pode ser nojento na opinião dele!
E conversa vai, conversa vem, enquanto mostram a menina gordinha fazendo exercícios na academia, tendo aulas de etiqueta, convencendo o cara mais “popular” do colégio a ir ao baile em sua companhia (e o otário logicamente aceita, porque ele está sendo FILMADO), eis que surge o campeão da noite, um desses típicos adolescentes americanos, que tem ‘titica de galinha’ – pra não falar merda - na cabeça, e solta a seguinte afirmação: “acho que ela não vai conseguir! O negócio dela é ficar na biblioteca, e andar por aí sozinha com a bolsa entupida de livros cheios de… cheios de coisas escritas, e tal”.
“…livros cheios de… de coisas escritas”. O cidadão chegou a hesitar, ou por ter esquecido a palavra que ia falar, ou por medo da repercussão que isso daria. Ou por simplesmente ser uma mané mesmo, que nem sabia do que estava falando. A cara de nojo que ele fez ao dizer “cheio de coisas escritas” foi pior que a do outro cara dizendo “livros”. Podiam muito bem pegar essa cena, e colocar uma dublagem, com uma voz dizendo: “cara, comi um sanduíche cheio de insetos mortos“. Ninguém ia notar a diferença.
E o que é mais hilário ainda, durante o intervalo comercial, a MTV solta uma daquelas suas propagandas institucionais idiotas, onde é dito um monte de asneira e termina com uma tela preta escrito assim: “desligue a TV e vá ler um livro”. Faça-me o favor, né? Playboyzada criada com a MTV como babá, vamos evoluir, meus camaradas!
Pensando bem, uma pessoa que sai por aí, lendo livros cheios de coisas escritas, realmente não é uma pessoa muito equilibrada. Onde já se viu uma coisa dessas? Que falta de respeito com os analfabetos culturais, com os pseudo-anarquistas espancadores de trabalhadores, com os calhordas políticos e com os Renans Calhordas que se aproveitam da nossa nobreza…
Ah, só lembrando, essa é uma história real, passada nos Estados Unidos, a maior potência do mundo, berço dos maiores cientistas, dos maiores descobridores, dos grandes gênios… Pelo menos assim pensam eles…
Claro, mas se você for levar ao pé da letra, existe muito livro por aí, infantis principalmente, ou mesmo para o público mais crescidinho, como esse que eu adoro, com mais gravuras que texto. Esses livros sim, não estão cheios de coisas escritas. Nesse caso existe a possibilidade de o cidadão retardado acima estar se referindo a esse tipo de livro. Mas vocês acreditam realmente nisso? Bom, eu não!
PS: Curiosos em saber se a garota conseguiu ser a rainha do baile e dançar com o desmiolado garanhão do colégio? Pessoal, estou decrevendo um programa de TV, então lógico que ela conseguiu!!





