2008: o ano Machado de Assis, o ano da Literatura Brasileira.
Sexta-Feira, 25 Janeiro 2008 de Marconi L. Pires
EM 2008 LEMBRAMOS OS 100 ANOS DA MORTE DE MACHADO DE ASSIS, nosso escritor maior. Mas quem foi Machado, e o que ele representa para a nossa cultura?
É isso que uma série de comemorações e lançamentos vai tentar explicar esse ano. Eu li Machado de Assis tardiamente, quando ano passado comprei o Quincas Borba. Já tinha lido o conto “A Carteira”, e antes disso sempre tive a impressão de que Machado era ilegível, muito arcaico e rebuscado. Pelo contrário. Quando eu li A Carteira, percebi que tudo o que eu tinha ouvido falar de Machado não passava de preconceito. Quincas Borba, por exemplo, poderia ter sido escrito tanto no século XVIII quanto agora mesmo, no início do século XXI, grande é a sofisticação da linguagem utilizada por ele. Quando Machado narra: “o LANCE da carta que Rubião envia à Sofia” prova-se isso.

É certo que aqueles livrinho que te obrigam a ler no ensino fundamental te espantam um pouco da litreratura brasileira. Eu sozinho tomei gosto pela leitura, infuenciado por uma amiga, não pela escola, mas tinha verdadeira aversão à literatura brasileira. O primeiro livro que li, por gosto, foi A Morte Espera da Esquina, romance policial de James Hadley Chase. Li e reli em pouco tempo, gostei mesmo do livro, ele é de arrepiar! Só não li a terceira vez porque o livro era velhinho e já tinha perdido algumas páginas. Depois fui apresentado à Stephen King. Era fã das adaptações para o cinema, mas nunca tinha lido nada dele. Comecei por O Cemitério, e a destruição da família Creed. Quando soube, anos depois, que o tema do filme era Pet Sematary, dos Ramones, aí virei mais fã ainda de Stephen King (não me lembro se conheci Ramones antes de King, ou vice-versa). Depois li O Iluminado, a loucura de Jack Torrance. Sensacional.
Depois disso li Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, E.T.A Hoffman, sempre me mantendo longe da literatura brasileira. Senti que era pelo menos hora de tentar. E ficou na tentativa mesmo. Peguei o Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva pra ler. Comecei e parei duas vezes. Não conseguia chegar nem na metade do livro. Mais uma vez deixei pra lá e voltei para Stephen King.
Não me lembro bem quando e porque eu li o primeiro livro de um escritor brasileiro, mas lembro que, por recomendação de Chico Science (“Todo brasileiro deve ler esse livro! Tem que saber quem foi Josué de Castro, rapá!”), comprei Homens e Caranguejos, do Josué de Castro. O livro mexeu muito comigo, li em pouco tempo, e achei fantástico. Mostra a dura realidade o povo que mora e vive dos manguezais na cidade de Alagados e em outras cidades próximas a Recife. O contraste desse povo com os que moram em Recife, nas suas casas imensas. De fato, o que Chico Science disse, é vero. Todo brasileiro tem que ler Homens e Caranguejos, pra depois se olhar no espelho, e tentar enxergar dentro de si mesmo, dentro da sua própria hipocrisia.
“Seres humanos que se faziam assim irmãos de leite dos caranguejos. Que aprendiam a engatinhar e andar com caranguejos da lama e que depois de terem bebido na infância este leite de lama, de se terem enlambuzado com o caldo grosso da lama dos mangues e de se terem impregnado do seu cheiro de terra podre e de maresia, nunca mais se podiam libertar desta crosta de lama que os tornava tão parecidos com os caranguejos, seus irmãos, com as duras carapaças também enlambuzadas de lama.”
Depois disso li mais coisas brasileiras, até chegar a Machado. Gostei deveras do Quincas Borba, um livro super atual, muito bem escrito, dá muito gosto de ler. Penso em ler os outros livros dele ainda esse ano. Vai ter muito lançamento e relançamento bons, em virtude de 2008 ser o ano Machado de Assis.
Literatura brasileira não é um bicho de 7 cabeças, basta começar a ler as coisas certas. Não tive alguém que me ensinasse desde cedo a saborear tudo de bom que nossa literatura tem. Por isso corro atrás agora. Mesmo que escolha algum romance estrangeiro para ler, sempre tenho ao lado algum conto ou poesia de Drummond, alguma crônica do Veríssimo (filho), alguma estória do Guimarães Rosa…






bela argumentação, Marconi. veja bem, se você conseguiu gostar do Machado tardiamente (na verdade, nunca se é tarde para descobrir e redescobrir autores de qualidade), quem sabe em também não chego lá.
agradeço pelo comentário no BD e pelo link para este seu post.
Acho que agora sim eu posso dizer que sou
“brasileiro” pois sabendo tudo de Machado
posso ser uma pessoa melhor(mentalmente)
Leiam As obras de Machado pois são coisas
fabulosas…