Dia desses estava pensando se era eu uma pessoa culta. Bom, eu gosto muito de literatura, já li Kafka, aprecio uma boa música, brigo por um português bem escrito e bem falado, jogo xadrez, gosto de química e ciências em geral, assisto a todos os Cafés Filosóficos da TV Cultura, eu sei quem foi Josué de Castro e sou muito colaborativo. Enfim, gosto desse tipo de coisa que geralmente as pessoas não gostam.
Mas eis a questão: será que basta isso pra que consideremos uma pessoa culta? O Aurélio diz que cultura é “Refinamento de hábitos, modos ou gostos”. Acho que nisso eu me encaixo. “Conjunto de microorganismos, células, etc”. Opa! Eu sou um conjunto de células! “O processo ou estado de desenvolvimento social de um grupo, um povo, uma nação, que resulta do aprimoramento de seus valores, instituições, criações, etc.; civilização, progresso”. Essa já é uma questão mais ampla, complexa, que não compreende a definição individual que eu busco. Continuo sem minha resposta.
Fiz-me então uma série de perguntas:
quantos idiomas eu falo fluentemente?
Apenas um (e muito mal), o português;
o que eu entendo de arte moderna?
Nada;
tenho quantos cursos superiores completos?
Nenhum;
em quantos outros países eu já estive?
Apenas um, na Espanha;
ouço Beethoven, Mozart e Bach frequentemente?
Não;
já li Shakespeare?
Não;
qual a minha principal fonte de informação hoje?
Internet.
Nesse contexto, eu sou o que o Aurélio chama de “curto de inteligência, bronco, asinino“.
Foi quando eu li um pequeno texto de José Paulo Paes, que MODIFICOU O MEU OLHAR:
Cultura não é acumulação de informação, é assimilação de informação, é tudo aquilo de que a gente se lembra após ter esquecido o que leu. Revela-se no modo de falar, de sentar-se, de comer, de ler um texto, de olhar o mundo. É uma atitude que se aperfeiçoa no contato com a arte. Cultura não é aquilo que entra pelos olhos, é o que modifica seu olhar.
José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga SP, em 1926. Estudou química industrial em Curitiba, onde iniciou sua atividade literária colaborando na revista Joaquim, dirigida por Dalton Trevisan. Via Provocações.
Cada intelectual apresentar sua definição particular de cultura, a longa lista de livros indispensáveis que devem ser lidos, idiomas que se deve saber, etc. Haverá os arrogantes e esnobes. Há outros que tem amor ao conhecimento.
Há que observar que a definição de ser culto depende também do ambiente que se frequente: entre filólogos é uma, entre artistas, outra, ainda outra entre cientistas, e por ai vai. Não se consegue abranger todas as áreas do conhecimento científico atual, conhecer bem todas as línguas, as muitas áreas das artes.
Depende também do ambiente a volta. Por exemplo, os alemães são um povo culto: o latim ainda é ensinado regularmente, a música clássica é habitual, disto resulta que mesmo os que pouco cuidam de se instruir já recebem muito do ambiente. Bem em oposição ao que é a circunstância de um brasileiro nascido em cidade pequena, onde os recursos, contatos, influências podem ser muito pobres. Portanto, é uma definição relativa.
Como quer que seja, há muita vaidade nesta definição. E tristemente, os que divulgam a cultura trazem-na cada vez mais para um mundo imediato, com seus valores e modas efêmeros, diminuindo a chance de se ter contato com as fontes clássicas da cultura .
Cultura vai-se adquirindo por esforço próprio como bem cita, trata-se de esforço pessoal, cumulativo, com erros e acertos.
Contudo, não concebo alguém que seja culto que não se cerque de livros e que não conheça, no mínimo, um outro idioma.
Ah, sim, devo acrescentar, os bons autoditadas podem prescindir de uma faculdade ( especialmente com a má qualidade que apresentam atualmente). Ter vários diplomas a mim jamais causou-me grande impressão. Bem ao contrário, sempre penso que se trata de pessoas provavelmente bem dotadas mas confusas. Cultura não se adquire em banco de escola, embora este forneça as ferramentas.