Roda Viva com Carlos Lyra
Quarta-feira, 2 Abril 2008 de Marconi L. Pires
Anteontem foi ao ar pela TV Cultura o excelente Roda Viva, tendo Carlos Lyra como entrevistado, como parte das comemorações dos 50 anos de Bossa Nova. Na minha opinião o programa foi mediano, falou-se muito de rótulos e datas, pouco de música. Primeiro quero dizer que conheço pouquíssimo de Lyra, e que o meu conhecimento acerca da Bossa Nova resume-se a Tom, Vinícius e João Gilberto. Achei que o programa foi médio pois quase que o tempo todo foi discutido principalmente o marco-zero da Bossa Nova (o Lyra afirmou que na sua opinião - e na minha também, e na do Tom também - tudo começou com Chega de Saudade, do João Gilberto). Mas o que tem-se de oficial é que Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, em 1958, marcou o início de tudo.

Não quero entrar nesse mérito, até porque os que entraram na verdade se passaram por grandes chatos. O próprio Lyra disse que o leque está aberto, e que o movimento que ele diz que não teve a intenção de criar, surgiu entre 1954 (quando ele compôs sua primeira música) e 1959, quando do disco do João. Aliás, e como insistiram com ele sobre essa intenção de formar a Bossa Nova! Mesmo ele negando que, na época, quisesse/pensasse em criar alguma coisa.
Entre os entrevistadores estava Ruy Castro, jornalista, escritor que entre outros livros escreveu Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova, em 1990. Bom, era de se esperar que toda a parte científica da discussão ficasse por conta do Ruy. Em vários momentos em que Lyra não tinha certeza de datas, nomes, entrava Ruy para socorrê-lo. Foi válida a sua participação, visto que num programa de renome como o Roda Viva, entrevistando Carlos Lyra, sendo o assunto principal a Bossa Nova, Ruy Castro não poderia faltar nessa prosa. E ele conhece o movimento como ninguém, mas algumas poucas vezes se passou como chato, daqueles que estudaram muito uma coisa que não viveram e falam como se tivessem feito parte dela. Mas foi ótimo ver a prosa entre Ruy e Lyra.
Rótulos
Respeito e admiro muito o Sérgio Cabral, um dos entrevistadores, dispensa apresentações, mas nesse programa ele foi de uma chateza absurda, em muitos casos desmentindo afirmações que o Lyra fazia. Meu caro Sérgio, a estrela do programa foi o Carlos Lyra, não você. Você querer rotular cada música, cada interpretação, cada composição da época, em busca de um genuíno cantor de Bossa Nova foi um fiasco. Objetivo foi o Lyra, que em uma frase, de uma forma muito abrangente e eficiente, definiu quem cantava Bossa Nova: “Adoro a Elizeth Cardoso, seu disco Canção do Amor Demais é essencial, mas não é Bossa Nova. Bossa Nova, em primeiro lugar foi Chega de Saudade“. Pronto, simples e direto ao ponto. Durante todo o programa lá estava o sérgio (e outros) rotulando cada acorde cantado por todos da época. Que chatice.
O próprio Lyra foi um chato em certos momentos. Tudo pra ele era culpa da classe média. Se o Brasil não tem cantor que preste, culpa da classe média. Se seu disco não vende, culpa da classe média. Se a Bossa Nova ainda não é sucesso no Brasil, culpa da classe média. A única classe média forte, atuante do brasil é a classe média de São Paulo, segundo ele. Que se dan* a classe média.
Influências
Outra chatice do Sérgio foi tentar negar a influência do Jazz sobre a Bossa Nova. Ele foi teimoso em afirmar que não conseguia ouvir qualquer influência desse gênero na música do Tom, por exemplo. Ele chegou a perguntar pro Lyra: “me fala apenas uma música do Tom que tenha elementos jazzísticos“. O Lyra, meio que já se enchendo dessa bobagem, respondeu: “as influências são o tempero da mistura. É algo como a pimenta no vatapá baiano, quer dizer, se colocar demais, não fica bom. O jazz sempre esteve lá, na medida certa, nada que descaracterizasse a nossa música. Música brasileira é o samba, e é isso que deve predominar, com as influências muito moderadas.” Ótimo argumento, Lyra. Não é possível que as pessoas não percebam pitadas de jazz em composições como Wave por exemplo. E o fato de o Tom ter levado seu piano pra Mangueira encerra qualquer tipo de discussão desse tipo.
Fizeram a absurda pergunta ao Lyra sobre se a Bossa Nova influenciou o modo de cantar do Paulinho da Viola. Lyra foi direto: “não sei, deveriam perguntar pra ele“. Sergio, um dos que deu o nome de Paulinho da Viola à Paulo César Batista de Faria, interveio, dizendo que Paulinho era categórico ao afirmar que gostava de Bossa Nova, a felicitava, mas não cantava Bossa Nova.
Repertório
Genial foi uma afirmação de Lyra sobre Maria Rita: “A Maria Rita é muito melhor que os discos que ela grava“. Fantástico! Ou seja, ela canta muito bem, tem uma voz sensacional, mas lhe falta repertório. E é isso que acontece com a maioria das cantoras contemporâneas: grandes cantoras, repertórios medíocres.
Fernanda Takai tem sido uma das poucas que tem tentado mudar esse quadro, e até chegaram a comentar sobre isso durante o programa. O seu excelente Onde Brilhem os Olhos Seus, uma homenagem à Nara Leão, é um disco essencial a quem aprecia uma bela voz interpretando grandes canções. Quando lhe perguntaram que repertório então cairia bem à Maria Rita, que tipo de música ela ficaria bem ao cantar, Lyra não hesitou: “as minhas, lógico!“.
É muito legal ver pessoas do quilate de Carlos Lyra pensar música de forma semelhante à que eu penso. Sinal de que estou no caminho certo em busca da batida perfeita!
Uma história engraçada que Lyra contou. Chegou ele e Stan Getz para se apresentarem num bar nos estados Unidos. Lyra já tinha avisado à Getz que ele não cantava Garota de Ipanema, e outras desse tipo, que só cantava músicas próprias. Durante a apresentação, Chat Baker entra no bar, aprecia aquilo tudo, e diz: “ah, música brasileira! Vocês tocam Garota de ipanema?”. Lyra, mais que depressa, começou: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça…“. Ao seu lado, um furioso Stan Getz rangia os dentes: “Ah, pra ele você canta, né?“.Uma pequena história fantástica, daquelas de alegrar os ouvidos.
De uma maneira geral o programa serviu para ouvir belas histórias como essa. Só penso que ele poderia ser menos técnico, ter menos buscas à fatos históricos, e se concentrar na música, que é o carro chefe da Bossa Nova. O movimento Punk foi tão importante quanto o Punk Rock, mas será que o movimento Bossa Nova foi tão importante assim, a ponto de ofuscar a música, a canção?
Uma curiosidade
Engraçado também é relembrar que Raul Seixas detestava Bossa Nova, não suportava aquela maneira de cantar. Numa entrevista, Marcelo Nova, que também nunca foi muito fã do gênero, disse que certo dia o Raul chegou em sua casa , dizendo que não aguentava mais aquela palhaçada, que era muito barquinho a deslizar no macio azul do mar, que ele já estava de saco cheio dessa porr*!






oi, gostaria de saber qual teria sido a intenção da letra garota de Ipanema.
pois tenho que fazer uma pesquisa e nao tenho dados especificos para chegar a uma conclusão.
obrigada.