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…ou O balanço de um ano que foi parar no lixo

Há muitos anos eu era fanático por futebol. Mesmo sem ter a menor habilidade com a bola, sempre gostei de assistir aos jogos do Atlético Mineiro. Tinha carteira de estudante, pagava meia entrada e ia ao campo duas vezes por semana, com chuva ou sol, na geral ou na arquibancada, lá estava eu gritando: “Vâmo ganhar, Galôôô!!!”

Mas há muito essa paixão se esfriou, principalmente depois que me mudei de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro. Mas nunca deixei de sofrer quando o Galo perdia, e se encontrava em alguma situação difícil. Mesmo distante, sem pisar há muito no Mineirão, nunca deixei de me importar. Mesmo que beeeem de leve.

Em quatro anos, entre 1993 e 1997, frequentando assiduamente o Mineirão, nunca vi o Galo ser campeão de nada. Sempre ou batendo na trave ou nem chegando perto dela. Algumas vezes roubado, tudo bem, mas nesse período – e no longo período que continua até hoje, ter o título de campeão Brasileiro da segunda divisão como título mais importante – e quase único, é lastimável. É duro uma paixão que resista.

Me mudei de Belo Horizonte em 2001, e além da família, deixei pra trás as lembranças de qualquer time de futebol. Foi como um coma, daqueles que se passa anos desacordado e quando se acorda, não se lembra do que se passou nesse período.

Mas eis que a primavera de 2008, além de trazer flores coloridas e perfumadas, também me trouxe de volta a BH. E a paixão pelo Galo reacendeu. Não cheguei a voltar ao Mineirão, meio que com o pé atrás, mas passei a acompanhar mais de perto as notícias, as escalações. E, infelizmente o ano de 2008 acabou como vários outros: nulo. Sem títulos, sem classificações para torneios importantes, nem nada.

Mas 2009 está aí e com ele vem a esperança, alimento maior dessa massa atleticana que anseia por tempos melhores. Vem o Campeonato Mineiro. O Galo invicto, com um bom treinador, apesar de não ter um grande time, chega à final de campeonato mais previsível do Brasil: contra o Cruzeiro. O resultado do primeiro jogo, nem tão previsível assim: 5 x 0.

Assisti ao jogo em casa, sozinho, e a noite, meu filho, então com 5 anos, chega da casa do avô, onde também assistira ao jogo e, com cara de deboche, me avisa, como se eu já não soubesse: “uai, pai, o Galo perdeu feio pro Cruzeiro, heim?” A minha resposta pra ele foi automática: “esquenta não, filho, semana que vem o Galo ganha!” Aliás, foi nesse exato momento que eu percebi que nós, atleticanos, somos movidos talvez nem tanto por paixão, mas principalmente por esperança.

Bom, esperanças renovadas, treinador – nem tanto – renovado, vamos diretos pro Brasileirão, porque o Atlético simplesmente não disputou a Copa do Brasil. Com o time entrosado, o Celso motivado, o Tardelli inpirado e os principais clubes focados em outras competições, o Galo parte logo pra liderança, deixando todo mundo pra trás. Disputando apenas o Brasileirão (sim, porque o Atlético simplesmente não disputou a Copa Sulamericana, nós nunca realmente saberemos os motivos, principalmente os daquele time mixto que entrou pra perder pro Goiás mesmo!) “acho que fica mais fácil se concentrar nas partidas, acho que o time não sofre tanto com o desgaste físico e o professor tem mais tempo de estudar os outros jogos…”.

Na minha opinião tudo ia bem até o primeiro confronto contra o Cruzeiro. O Galo ganhou bem e convenceu a torcida, mesmo jogando contra um time reserva que levava o Brasileirão nas coxas enquanto o time principal disputava a Libertadores. Mas minha esperança foi abalada pela primeira vez quando um amigo, com bastante deboche, cantava que se o Cruzeiro tivesse jogado com o time titular, o Galo nunca teria ganhado esse jogo. Sabia que, doia admitir, mas, isso tinha um fundo de verdade, fato depois comprovado no segundo turno do campeonato.

E o Brasileirão foi acontecendo, o Cruzeiro perdendo a Libertadores, o Kaliu gozando o Zezé, que por sua vez replicando que a liderança deles (Atlético) seria uma coisa momentânea, passageira, e minha esperança foi abalada pela segunda vez. Será que essas história de liderança relâmpago, cavalo paraguaio, poderia ter fundamento?

Bom, e teve. Não demorou muito o Cruzeiro passou a frente do Atlético, que por sua vez nem uma vaguinha pra Libertadores fisgou, e mais uma vez mais um ano indo pro ralo, nulo. O desabafo do nosso presidente ainda no aeroporto resumiu o sentimento atleticano. A sensação é a de que o ano foi jogado no lixo. Mas, senhor presidente, não porque o atleticano prefira os anos anteriores, quando lutava pra não cair, mas porque há muito o clube nunca esteve tão perto de conquistar o Brasileirão, há muito não se tinha tantas condições de levantar o caneco. Nos outros anos, não. Uma posição a mais na tabela já era lucro. Mas em 2009, senhor presidente, nós queríamos era o título mesmo… :’-( E não foi culpa só do Celso, não, heim!?

Posso assegurar que, da minha parte, não faltou acreditar. Mas é acreditando de mineiro, sabe? Acreditando meio que desconfiado, cismado…

Mas o Luxa está aí, e o bicho vai pegar. Esperanças renovadas pra 2010? Nem tanto. Quero acompanhar de perto o Campeonato Mineiro, vou voltar a ir ao Mineirão, torcer pro time que sou fã. Tudo moderadamente, sem excessos, sem muita exaltação, porque se tem uma coisa que a história me ensinou, e tenho maturidade pra entender, é que “a vida não se resume em futebol”.

Qualquer semelhança com alguma história que certamente conhecemos não é mera coincidência.

Certo dia Oscar Niemeyer chega ao escritório para mais uma jornada de trabalho. Com o pensamento entre curvas e concreto armado, logo na entrada do prédio se depara com uma criança suja e mal alimentada vendendo balas e doces. Oscar se sensibiliza com o garoto lhe compra algumas balas, e segue em direção ao elevador que o leva para o escritório. No curto trajeto entre o saguão e sua sala, Oscar pensa: “Isso não é justo. Assim como sobe esse elevador, sobe também a miséria daquele garoto”.

Chegando em sua sala, Oscar liga para a segurança e pede que lhe tragam aquele garoto vendedor de balas. Sobe então o garoto até a sala de Oscar. Oscar quis saber onde ele morava, se estudava, e onde estavam seus pais. O garoto responde que morava ali mesmo na rua, que nunca havia entrado numa escola, e que não sabia por onde andavam seus pais.

Uma empregada de Oscar, uma portuguesa muito da generosa, ouvindo aquele diálogo, veio a intervir: “Seu Oscar, deixa que eu o levo pra casa. Meu marido é chofer de praça, vive a trabalhar, o garoto me será uma boa companhia”. Oscar assentiu.

Duas semanas depois a portuguesa, agora muito assustada, chora junto ao Oscar: O garoto sumira! Sem uma explicação, sem deixar um rastro.

Passado alguns dias, para surpresa de Oscar, o garoto, maltrapilho e maltratado, reaparece em seu escritório. Se diz arrependido da fuga, e que estava disposto a ser educado. Oscar o recebe de bom grado. Oferece um banho quente, lhe veste com roupas novas, matricula-o em uma boa escola, e mais uma vez a portuguesa generosa o leva pra casa.

Mas a alegria não durou muito. Mais uma vez o garoto desaparece inexplicavelmente. Oscar, meio que já conformado com a história, reflete: “Decerto ele sofre do mal que assola a maioria dos moradores de rua. O mal de se recusar a ser educado. De não estar habituado a ter um lar, uma cama quente, roupas limpas e uma pessoa que se importe com ele. Estava acostumado sim ao corre-corre noturno, às fugas constantes da polícia, aos companheiros de vícios, ao travesseiro de pedra, ao chão frio da rua que lhe sirva como cama”. isso sim. Enfim…

Dessa vez o garoto desaparecera definitivamente, a não ser por um telefonema, dez anos depois. Do outro lado da linha uma voz adulta, porém familiar, queria saber se aquele generoso senhor que o acolhera há dez anos estava bem de saúde. “Ele foi um garoto atencioso, se lembrou de alguém que ao menos tentou ajudá-lo no passado”, disse Oscar em pensamento. E sem ressentimentos…

Uma história contada por Oscar Niemeyer à Paulo Henrique Amorim

Pra quem tinha alguma dúvida sobre o que fazer durante a propaganda eleitoral gratuita, aí vai uma dica:

Enquanto você
De paletó e gravata
Aparece na TV
E diz coisas que nao consigo entender

O que que eu faço?
Vou fazer cocô
O que que eu faço?
Vou fazer cocô

Você vive prometendo
Que tudo vai melhorar
Mas cada vez mais
Está pior a situação

Enquanto você promete
Vou fazer cocô
Enquanto você promete
Vou fazer cocô

Enquanto você
Sobe no palanque
Pra tentar
Enganar todo mundo
Enquanto você fala
Vou fazer cocô
Enquanto você fala
Vou fazer cocô

Enquanto você
De paletó e gravata
Aparece na TV
E diz coisas que nao consigo entender

O que que eu faço?
Vou fazer cocô
O que que eu faço?
Vou fazer cocô

Mas o que que eu faço?
Ô, ô, ô, ô
Mas o que que eu faço?
Ô, ô, ô, ô
Ô, ô

Vou Fazer Cocô, by Garotos Podres

Hoje meus 29 anos

Crescem mais pêlos
Nas minhas orelhas –
Mais um ano chega ao fim…

Hai Kai de Paulo Franchetti

A primavera

Nem tudo são flores
nos meses de primavera
Voam maribondos…

Hai Kai de Leila Míccolis

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma de nossos corpos e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia. E se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.

Sobre o autor:
Fernando Pessoa (1888 – 1935) nasceu em Lisboa/Portugal.
É considerado um dos mais importantes poetas modernistas.
Criou heterônimos famosos como Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

Via: Provocações

Sempre que digo que Stephen King é meu escritor favorito, muitas pessoas me dizem: “mas como pode ler esse lixo?” Talvez o gênero literário afugenta um pouco certos leitores. Mas óbvio, a maioria que diz que King é lixo, nunca pegou num livro dele; no máximo assistiu algum filme baseado em alguma novela sua e se pôs a criticar.

Mas Stephen King não é pra qualquer um. Um pouco de cultura e estudo se faz necessário para compreender muitas passagens de sua obra. Por exemplo, na introdução de Dissecando Stephen King, ele fala de quando lecionava inglês, e de como ele e seus alunos pareciam de certa forma com “cães de Pavlov”. Mesmo ele dando uma dica do que se trata (“éramos condicionados a começar a falar – salivar – ao primeiro toque da campainha, e a se emudecer ao segundo toque, alguns minutos depois”) duvido que algum crítico de momento tenha capacidade de entender o que King diz naquele momento. Portanto resumem-se a criticar.

Outro exemplo é no conto O Nevoeiro, de Tripulação de Esqueletos. No princípio, quando estão todos presos naquele supermercado, David se vê dentro de uma grande “caixa de Skinner”. Não, seu verme, não o Skinner diretor da escola onde estuda Bart Simpson, mas o grande psicólogo americano, pai do behaviorismo, ramo da psicologia que mais se aproxima do conceito de ciência.

Óbvio que o não conhecimento sobre os conceitos que citei não interfere de uma maneira geral no entendimento da obra como um todo. Mas vejo a leitura como um montante de pequenos prazeres. Os grandes autores sempre se preocupam em escrever da melhor forma possível, em usar a palavra mais certa, em harmonizar frase a frase da história. O mínimo então é reconhecer cada esforço desse, e não simplesmente deixar de entender uma passagem imaginando que ela não vá fazer falta no contexto geral.

Das duas, uma: ou esses críticos nunca pegaram num livro de King (ou de qualquer outro autor); ou se pegaram, se depararam com alguma situação parecida com as que acabei de citar, fundiram a cuca e largaram o livro pra lá (é sempre mais fácil não fazer!). Mas para esse tipo de leitor (se é que podemos chamá-los de leitor) sempre haverá os ‘paulos coelhos’ da vida, literatura (se é que podemos chamar de literatura) fácil, que nada te ensina ou “nunca lhe tira da inércia”, como dizia Guimarães Rosa.

Vão em frente!

PS: As notas do último parágrafo não são pré-conceitos de minha parte. Tratam-se apenas de provocações.