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Posts Tagged ‘guimarães rosa’

Um certo Miguilim

EM JULHO APROXIMADAMENTE PEGUEI SAGARANA, do João Guimarães Rosa pra ler. Conheci a casa em que ele morou, em Cordisburgo, que hoje é museu (até bati na velha máquina de escrever usada por ele), conheci pessoalmente o vaqueiro Manuelzão, na sua festa de aniversário de 90 (ou 91, ou 92) anos, também em Cordisburgo. Li muito a respeito de Rosa, suas manias, seus gatos, mas nunca havia lido uma obra sua. Já passava da hora, então. Já que tinha ganhado Sagarana, resolvi começar por este mesmo.

Quer dizer, só começar mesmo, porque não cheguei nem na metade d’O Burrinho Pedrês. Foi um choque literário pra mim. Não sabia que Guimarães Rosa era assim tão diferente de tudo o que eu estava acostumado. Já tinha ouvido falar do seu ‘linguajar’ lá das Gerais, seu jeito peculiar de descrever as coisas. Já tinha folheado vários de seus livros, mas ler é algo muito mais profundo. Estonteante. Sou até um grande fã de uma de suas mais famosas frases, a que diz que “eu não falo difícil. Apenas sei o nome das coisas”. Mas quando fiquei na dúvida se Badu era personagem, ou adjetivo criado por Rosa, vi que era hora de parar. Tive de deixar o livro de lado, pra não ter uma impressão errada sobre ele.

Decidi ler algo mais fácil. Optei por Kafka. Não é ironia minha, não. Quem diz que Kafka é difícil, inatingível, se engana. Ou nunca pegou um livro dele pra ler, ou se baseia na opinião dos outros. Li então “A Matamorfose”, seguido de “O Veredicto”. Fantásticas! Li mais uma coisinha ou outra, e voltei o pensamento pra Rosa. Mas não pro Sagarana. Tinha lido a respeito de Corpo de baile, e há muito tinha comprado Manuelzão e Miguilim num sebo aqui em Goiânia. Me adentrei então no Campo Geral do Miguilim

Foto: Juca Filho, em flickr.com/photos/jucafii

Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’água e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutúm. No meio dos Campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, havia saído dali, pela primeira vez; (…). De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutúm, tinha dito: – “É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre.”

Assim começa a saga do nosso herói. Mas que baita heroi é esse! Há muito não me apaixonava por uma personagem tanto quanto me apaixonei por esse Miguilim. Meu filho agora só chamo de Miguilim. E que narrativa estonteante. Comecei a ler na primeira semana de Dezembro; tive que fazer uma pausa, causa das provas finais na faculdade. Voltei na última semana do mês. A “estória” se desenrola de uma forma mágica, prendendo e impressionando a quem se atreve a desvendá-la. As últimas 60 páginas li num fôlego só. Virei a noite. Não podia dormir sem saber como acabava aquilo tudo.

Mas felizmente não acabava. No acabar, começava uma nova vida pra Miguilim. Ia ser levado dali pelo doutor José Lourenço, do Curvêlo. Um homem muito bom. Miguilim ia estudar, depois aprender ofício. E um novo mundo se abria então. Descoberta sua vista curta (Miguilim era míope, tal qual seu criador; via aí um traço da biografia de Rosa dentro da narrativa), ele pode ver finalmente, através dos óculos emprestados pelo doutor, que sim, como era bonito o Mutúm!

Olhava mais era pra Mãe. Drelinha era bonita, a Chica, Tomezinho. Sorriu para tio Terêz: – “Tio Terêz, o senhor parece com Pai…” Todos choraram.

O fim, era só o começo de tudo.

E Miguilim merecia. Garoto obediente, ingênuo, honesto, que sofria como a maioria dos meninos da sua idade criados no sertão. Sem perspectiva, sem futuro, sua sina era a roça, o campear naquele mundão-sem-fim, ao lado do Pai, que tinha o mínimo de sentimento por ele. Era só ralhar e espancar. Quando o pai não estava indiferente, estava com raiva. Ele só demonstra apego pelo menino quando o vê no leito da cama, prestes a morrer.

Miguilim sorriu. Pai chorou mais forte: – “Nem Deus não pode achar isto justo direito, de adoecer meus filhinhos todos um depois do outro, parece que é a gente só quem tem de purgar padecer!?”

É, mas Miguilim era forte, tinha uma força que pouco boi tem; venceu aquilo tudo, com maestria que pouco adulto tem. E Rosa, contando essa “estória” toda, consegue comover a gente. Dá vontade, depois de virar a última página, de voltar logo pra primeira de novo, mó de buscar algo que se tenha perdido na primeira leitura.

Mas bem sei, pois já me ensinaram, Guimarães Rosa não é escritor de ser lido uma só vez. A sua literatura é estonteante por demais. Te tira da inércia. Como ele mesmo disse, que toda boa leitura, assim deve ser.

De fato Rosa não falava difícil, ele sabia o nome das coisas. Nunca se submeteu à tirania da gramática, dos dicionários dos outros. Tinha o sonho de fazer o seu próprio dicionário, com os termos usados pelos sertanejos. Há até uma lista criada por ele com algumas dessas palavras. E aquelas inventadas por ele, eram marcadas com um m%, (meu 100%).

Me adentro agora n’Uma estória de Amor, a saga do nosso querido Manuelzão.

O sertão é o mundo.

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